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Eu não deveria ter nascido?

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Outro dia me contaram uma história que não consegui tirar da cabeça.

Uma mulher nasceu de um estupro. Sua mãe tentou interromper a gravidez, mas o aborto era ilegal no país e, na época, não havia como. A menina nasceu, cresceu, viveu e, atualmente, tem um filho e um marido que, como ela disse no relato, ama muito. Anos depois, num avião, ela travou conversa com um homem que defendia a proibição do aborto, exceto em casos de estupro. Ele explicou sua posição com convicção, do jeito que costumamos fazer, com respostas prontas, principalmente sobre esse assunto (culpado confesso). Mas, enfim, com respostas na ponta da língua para posições que nunca tivemos que viver na pele.

Ela ouviu tudo. E então perguntou:

Então eu não deveria ter nascido?

Não sei o que o homem respondeu. Mas sei que a pergunta dela é uma das perguntas mais honestas que já ouvi, porque ela não está defendendo uma tese impessoal. Está discutindo a própria existência. Se merecia, ou não, estar viva.

A régua errada

Caro leitor dos meus registros, repare no que aconteceu ali. O homem tinha uma régua moral perfeitamente organizada: vida é vida, exceto quando a origem dessa vida carrega um trauma grande demais para ser tolerado pela sociedade. É uma régua que parece compassiva, à primeira vista, correta, protege a mulher do peso adicional de gerar a lembrança viva de uma violência. Mas ela também, sem perceber, mede o valor, ou pior, o direito de viver de uma pessoa pelas circunstâncias do início de sua vida.

E é aí que a pergunta da mulher no avião me quebrou. Porque, se o valor de uma vida depende de como ela começou, então o valor dela, nascida daquilo, é, por definição, menor, condicional, discutível. A régua que parecia proteger as mulheres vítimas de estupro, sem querer, também sentenciava os filhos delas a uma existência de segunda categoria: tolerável, mas não plenamente legítima.

Isso não é um argumento sobre legislação. É mais do que isso. É sobre de onde vem o valor de uma vida humana.

Nascer não é um mérito

Se pararmos para pensar, ninguém nasce por mérito próprio. Ninguém escolhe a família, o país, a genética, o momento histórico, muito menos as circunstâncias do próprio começo. Todo nascimento é, nesse sentido, gratuito. Não no sentido de fácil, mas no sentido teológico da palavra: dado, não conquistado.

Se isso é verdade para todos nós, então a origem, boa ou trágica, nunca poderia ser a régua certa para medir o valor de ninguém. Porque, se fosse, ninguém passaria no teste. Todos nós dependemos inteiramente de circunstâncias que não escolhemos para sequer existir.

O erro do homem no avião não foi ser contra o aborto, nem discordar dele em algum ponto específico. O erro foi aceitar, ainda que só naquele detalhe, que existe uma régua capaz de medir quem merece ter nascido. Essa régua não existe. E a prova mais contundente disso estava sentada ao lado dele, esperando uma resposta que ele provavelmente não tinha.

O que fica

Não escrevo isso para fechar o debate sobre o aborto. É um assunto grande demais para caber num parágrafo de conclusão, e simplificá-lo não seria honesto da minha parte. Escrevo porque a pergunta dela ultrapassa a pauta e chega a outro lugar: todos nós, de um jeito ou de outro, já perguntamos por que existimos, se merecíamos existir, se nossa origem, seja ela pobre, quebrada ou dolorosa, de alguma forma nos desqualifica.

A resposta que eu carrego, como cristão, é que valor não se mede pela origem. Mede-se pelo que já foi pago por ela. E, se até o que é perfeito entregou a própria vida em prol de muitos, então nenhuma régua humana, nem mesmo a mais bem-intencionada, está autorizada a decidir quem deveria ou não ter nascido.

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