A SEGUNDA CARTA PÁGINA 13
Do gabinete de CHRONISTA, quarto 587 da Casa 54, na quadragésima quarta rua, ao nobre
Destinatário: Ao nobre agente do acaso. Ao redor de cada esquina, atravessando cada ponte — visitando os habitantes do mundo
Caro Acaso,
Sei que, de fato, não devo atribuir-vos todos os males, e confesso que tenho estado um tanto pensaroso acerca das coisas que meus olhos têm contemplado. Bem sei que, muito antes de mim, que não passo de um broto tenro, já caminháveis por este mundo e testemunháveis como os homens jamais se cansam de praticar patifarias e torcer a justiça. Dizei-me, pois: padecem eles de fraqueza da memória, ou simplesmente recusam-se a aprender com os anais da História?
Sois deveras silencioso, meu caro. Há muito não recebo carta vossa. Todavia, nas cercanias de minha morada, chegou-me notícia de novo desvio cometido pelos grandes do reino. Não somente ouro foi tomado, mas também o pão daqueles que pouco ou nada têm para pôr à mesa. Nesta terra que outrora se chamou Vera Cruz, de onde já se arrancaram tantos tesouros para enriquecer os habitantes do Velho Continente, ainda se colhem os frutos amargos da cobiça.
Neste Ano do Senhor não escasseiam exemplos. Mas, para ilustrar, levantou-se, uma grande devassa conhecida entre os homens como Afluente, talvez uma das mais robustas e reveladoras diligências movidas contra as sombras da corrupção.
Perscrutam os ministros da lei uma vasta confraria de homens ímprobos, formada por agentes do poder e mercadores, os quais, em torpe conluio, teriam desviado dinheiros públicos provenientes das mercês distribuídas pelos representantes do povo. Servindo-se da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba, converteram aquilo que deveria prover estradas, obras, socorro e sustento ao povo em riqueza particular.
Foram feitas buscas no Distrito Federal, em Goiás e no Maranhão, revelando quão extensa era a teia dessa empresa iníqua. E aqui, ó amarga ironia, o golpe mais profundo recai sobre a terra goiana, onde o suor do povo deveria regar o progresso, mas, ao que tudo indica, serviu para sustentar palácios invisíveis e deleites privados.
E como se não bastasse tamanho opróbrio, entre os bens recolhidos pelos homens da justiça figurava um carro alado, símbolo eloquente de quão alto voavam aqueles a quem incumbia guardar os tesouros da nação.
Assim, mais uma vez, o que pertencia ao povo foi transformado em luxo para aqueles que se proclamam seus representantes.
Estes e tantos outros acontecimentos têm-me lançado em grande tristeza. Dos embaraços maiores da política, porém, nem vos falarei, para não tornar ainda mais pesado o fardo desta missiva.
De vosso velho amigo,
— CHRONISTA