A TERCEIRA CARTA PÁGINA 14
Remetente: Do gabinete do CHRONISTA, quarto 587 da Casa 54, na quadragésima quarta rua.
Destinatário: Ao nobre agente do acaso. Ao redor de cada esquina, atravessando cada ponte — visitando os habitantes do mundo
Caro Acaso,
Venho a vós novamente lamentar pela antiga Vera Cruz. Bem sei que dela vos lembrais melhor do que eu, pois, outrora, nos anos da Regência, após o voo do Imperador, a jovem Nação viu-se entregue a facções que, sob o manto das liberdades, disputavam entre si os despojos do poder.
Foi, de certo, no Ano do Senhor de 1835, em meio aos sobressaltos da Regência, que o povo jazia em grande sofrimento, enquanto facções travavam renhidas contendas e a indulgência dos homens permitia que o mal corresse sem freio.
Agora, neste Ano do Senhor, contemplo de novo salões de palácio onde se banqueteiam homens gordos e embriagados do sangue dos inocentes, seguidos por procissões de sectários que não se cansam de praticar iniquidades. Juízes iníquos proferem sentenças sem que haja quem os refreie, e muitos parecem unidos por um mesmo intento de matar, roubar e destruir a alma desta nação.
Sei bem que não é privilégio de um só grupo, nem de uma só bandeira, este apetite pelo poder. Vejo os que hoje governam, embriagados de si mesmos; vejo também os que aspiram governar, já ensaiando as mesmas velhas manhas antes mesmo de sentar-se ao trono. Confesso-vos que ignoro se algum deles, alcançando o poder, de fato mudaria o destino desta terra, ou se apenas trocaria o nome do banquete, mantendo os mesmos convidados famintos do lado de fora. Cansa-me contemplar a falta do pão e o choro das criancinhas, seja qual for a mão que os deveria alimentar e não o faz.
Bem sei que, para vós, nada disto é novidade. Sois mais antigo que muitos impérios, ao passo que eu mal despertei para este mundo.
Eis a pergunta que paira como nuvem sobre esta velha terra: por quanto tempo o povo, herdeiro de tantas provações, continuará a trocar um jugo por outro, esperando que a simples troca de mãos baste para libertá-lo, quando o vício mora não nas mãos, mas no apetite de quem as ocupa?
Que a História, mestra severa, ilumine o caminho dos homens, para que não reincidam nos erros de seus antepassados, seja qual for a bandeira que empunham.
Fiel à minha pena, sigo vigilante.
De vosso velho amigo,
— CHRONISTA