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1° Carta.

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A PRIMEIRA CARTA PÁG 12


De Chronista,  do quarto 587 da casa 84 da quadragésima quarta rua para:

Destinatário: Ao nobre agente do acaso. Ao redor de cada esquina, atravessando cada ponte — visitando os habitantes do mundo

Caro Acaso,

Porventura, sois responsável, de fato, por cada mazela e por cada infortúnio na terra dos viventes? Certamente sei que Deus é soberano; no entanto, dado o Seu justo caráter, creio que não interfere em nossas próprias escolhas. E, se Lorenz estava certo, então de fato sois vós o culpado pelo dissabor que passo a narrar.

No ano da graça de 2025, nas Filipinas, ergueu-se grande abominação perante os olhos dos homens. Os governantes e os grandes do reino, proclamando-se defensores do povo e arautos do bem comum, destinaram vastos tesouros, bilhões de pesos em dinheiros públicos, a milhares de obras de contenção das enchentes, jurando que tais fortalezas protegeriam as gentes das fúrias das águas.

Porém, quão vã foi tal promessa! Muitas daquelas obras não passavam de fantasmas e enganos: malfeitas, infladas de preço ou simplesmente inexistentes, urdidas em torpe conluio entre potentados, empreiteiros e autoridades que se vestiam de virtude. Quando os terríveis tufões desceram com fúria, as defesas prometidas ruíram como castelos de areia, deixando o povo desamparado.

Assim, por cobiça e traição, disfarçadas de boa governança, muitos inocentes pereceram, famílias foram dispersas e terras inteiras foram tragadas. Grande foi a ruína, e maior ainda a hipocrisia daqueles que, dizendo-se protetores, tornaram-se algozes do seu próprio rebanho.

Dizei-me, pois: foi isto fruto da vossa intervenção, ou, assim como tantas outras coisas, efeito das obras dos homens?

De vosso velho amigo,

— CHRONISTA

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