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Sobre tristeza profunda.

Numa noite quente

Recentemente fui abordado por uma pessoa muito querida, uma grande amiga do trabalho, que me disse que gostaria de deixar de existir em um momento de forte pressão emocional. Imediatamente me propus a ouvi-la, mas ela não estava aberta a falar sobre o assunto, então respeitei seu espaço, colocando-me à disposição para futura procura. Porém, aquilo despertou em mim a lembrança de uma condição semelhante em que me encontrei no passado. Sei que a psicologia trata a tristeza profunda de várias formas diferentes, mas muitas vezes identificar o porquê de tais sentimentos não é uma tarefa fácil e, assim como eu, algumas pessoas encontram dificuldades em procurar um especialista. Pensei então: como posso ajudar? Percebi que não estava mais na mesma posição de antes e, mesmo sem terapia, acabei melhorando, e pretendo contar como consegui.

Não estou recomendando abandonar a terapia nem evitar um especialista. O que vou contar é a minha história, não um método.

Não sei explicar completamente o motivo, talvez devesse ter me tratado ainda na infância, mas minha família tinha o hábito de ignorar gastos adicionais. O caso era que, desde jovem, tinha um humor diferente dos meus irmãos e amigos; era, por vezes, fechado e, sem explicação aparente, sentia-me deprimido. Quando cheguei à adolescência, percebi que reparava demais em como as coisas funcionavam, em como as oportunidades eram desiguais e, embora me esforçasse ao máximo para me encaixar nas expectativas dos meus pais, líderes religiosos e professores, sentia o peso invisível de um caminho árduo, que eu não havia escolhido, estendido à minha frente.

Costumava me destacar em minhas atividades, sejam quais fossem. Mesmo não tendo recebido grande capital herdado, seja financeiro ou cultural, busquei me construir à minha própria maneira. Encontrei nos livros maravilhosas histórias sobre personagens incríveis e notei que, se eu quisesse que as coisas fossem diferentes, eu teria de fazer acontecer.

O resultado, como você já deve imaginar, foi a frustração. Como diz a canção “Aquarela”, de Toquinho, o futuro não pode ser controlado e, mesmo que façamos tudo corretamente, podemos falhar.

E, no meu caso, esse ciclo se repetiu por mais vezes do que eu gostaria de admitir, mas algo mudou na minha caminhada: o propósito.

Um dia cheguei em casa abatido, com uma vontade muito forte de me deitar e dormir, sem banho e sem comer nada. Tinha acabado de perder o carro e o emprego. Mesmo assim fui tomar banho, porque estava cansado do dia e a noite era muito quente, e ali, olhando o céu, como de costume, orei e pedi um escape, uma saída. No dia seguinte recebi o cartão do advogado e presidente de um escritório de advocacia, com uma proposta para começar a trabalhar ali. Aquilo me deu novos ares e, com o tempo, senti que, em meio às dificuldades, não estava sozinho. A profecia que recebi na primeira semana no escritório foi a resposta que eu aguardava. O profeta era um cliente do escritório, também reverendo, que, mesmo nunca tendo me visto antes, parecia me conhecer muito bem. Ele me disse que eu iria desempenhar um grande papel e uma grande obra, e desde então esse propósito surgiu em mim. Não digo isso para soar espiritualista, apenas relato os fatos.

Hoje, esse propósito é fazer o melhor que eu posso e seguir os preceitos cristãos, influenciando e ajudando quem quer que cruze meu caminho. Meu humor não mudou magicamente. Passei por trechos difíceis: o luto, pois meu pai faleceu aos 45 anos e minha irmã aos 25, e tive que me manter firme pela minha família; e o caos financeiro e a sensação de fracasso quando a empresa que fundei, e que havia prosperado, faliu. Ter um propósito me manteve firme, e com o tempo entendi o que significa a paz que excede o entendimento e o porquê de Jesus dormir na tempestade.

É importante deixar claro que nem todos os caminhos são iguais e que, muito embora tenhamos fé e propósito, ainda podemos nos sentir desamparados e tristes. Jesus chorou e tinha o maior propósito de todos, além de ser a personalidade mais importante da história. Às vezes precisamos de alguém, inclusive de um profissional, para nos ajudar a caminhar, e do cuidado de Deus.

A vida tem o costume de sufocar com muitas coisas que julgamos necessárias, mas soltar as correntes e se dedicar a algo que tem um propósito maior que nós mesmos dá sentido à vida e põe ordem no caos. Foi assim para mim. Não quero me colocar na posição de dar conselhos, mas, se alguém me perguntasse, eu diria: seja justo com você e com os outros, tudo que fizer, faça com amor, como se estivesse fazendo para o ser mais importante do Universo, perdoe com facilidade e seja prudente com as suas escolhas e responsabilidades. Nem toda luta é sua, e nem toda luta precisa ser lutada.

Algo que sempre recomendo: se você está passando por algo assim, ligue para o CVV, no 188. O atendimento é gratuito e funciona 24 horas por dia. Procurar ajuda não é fraqueza. Eu mesmo já passei muitas noites conversando com eles, inclusive com uma moça que me ajudou muito no passado. Em caso de risco imediato, ligue também para o 192 (SAMU).

Se preferir conversar comigo, pode escrever para [email protected]. Não sou psicólogo, mas sou um bom ouvinte e não faço julgamentos.

Lembre-se: não sou um serviço de emergência e posso demorar a responder, então, se a situação for urgente, ligue para o 188 ou o 192.

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